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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Quinquagésima Sexta Carta: O que é pior?

"Mesmo quando perguntam e insistem, evito falar algo sobre o que aconteceu entre eu e ela. Não é covardia, ingratidão, 'birra' ou similares pejorativos, mas... realmente é uma ferida cujas lembranças são como toques forçados na carne crua. Relembrar é deixar sangrar mais uma vez. Mas minha errata foi ter consentido em falar sobre, em revelar um pouco dessa história - talvez eu justifique isso no nível de amizade, ou talvez na necessidade de me expôr ao quão ridículo continuo sendo para tais situações, mas cá, aqui, não ligo em ter de dizer depois que o tenha feito. Para ser sincero, talvez até me arrependa por incluir mais alguém indiretamente, pois isso pode se virar contra mim outrora, porém é outro de desastre que posso lidar. Como de praxe, fui perguntado sobre tudo o que aconteceu e sobre o que tem me deixado triste, sobre as últimas palavras que tive com ela e sobre o que deveríamos ter conversado que por alguma falta de coragem não aconteceu: nem ditos, nem feitos. Por fim - e bem não gostaria de ter respondido - fui perguntado quanto ao que seria pior: continuar cercado de dúvidas ou saber logo de toda a verdade.

Nos primeiros minutos, não soube responder, e até enrolei em uma sequência de poucas sílabas, grunhidos e resmungos, mas... a lamúria está sempre presa à alma, não? Ao menos comigo tem sido desta forma. Tive de pensar com cautela, mas nada vinha à cabeça - talvez fosse minha obrigação responder o que vinha logo à mente. Ainda sim, nada falei, mas jurei que daria uma resposta já que me fora dado um tempo para pensar, para filosofar sobre, e depois de ter trocado poucas palavras  aleatórias com ela após a pergunta do amigo, decide escrever sobre isso.

Eu tenho ouvido a verdade. Ela a tem dito - pouco, mas deixou claro. E essa é a verdade que me tem custado cortes profundos, cicatrizes novas, mas conhecidas, amarguras eternas; minha memória é boa, confiável, traiçoeira e dispara contra meu futuro como uma britadeira, furando minha expectativa de dias melhores e diferentes, desinstruído quaisquer que sejam minhas capacidades de pensar que isso pode melhorar, mudar e até ser como eu quero. Mas aí é que tá. Eu havia a dito, e juro que até pedi perdão, por ser tão egoísta em querer que tudo saia como eu quero, no pensamento de que o melhor pra mim é o melhor para ela. Talvez possa ser, ou talvez isso seja, acima do egoísmo, uma mentira. 

Ela disse que não é egoísmo, e não me atrevi a perguntar, pois, o que seria. Antes disso havia ouvido a verdade sobre tudo - ou talvez tenha tomado aquele maldito e triste pouco como uma destruidora monumental. Agora, mal quero saber de mais. Sinceramente, até espero mais verdades, até anseio mais verdades, mas o medo é que novas cicatrizes se abram por cima das mais profundas, e que depois disso minha vida seja um buraco de lembranças ruins. Não quero que ela seja mais uma das lembranças ruins - o que ocupa esses espaços são as mortes, o passado e os adeus, e não quero vê-la em nenhum destes blocos.

Se possível, a arrastarei como tristeza para cada minuto seguinte, nem que seja como veneno para minh'alma. Pelo visto, continuo cercado por dúvidas, mas isto de fato não responde à pergunta que me foi entregue, e apesar de muito ter pensado, a resposta ainda me parece dura demais.

A verdade é que ela tem dito a verdade, ela entregou essa verdade em meu colo. Pena eu tê-la deixado sair, virar as costas, como quem diz 'tome e não diga nada'. Sei que não quero mais ser rodeado por essas dúvidas malditas, mas creio que elas quem põem minha vida em movimento, embora entre chicotes e espinhos. Ela tem dito a verdade, e eu tenho ignorado isto.

Não estou preparado.

Nunca estive.

E por isso sou a última capacidade para completar meu orgulho e minha esperança de tê-la nos braços como quero, de um modo egoísta e loucamente apaixonado.

Mas...

Talvez a verdade que ela tenha dito não seja a verdade.

Ou talvez eu não queira ver isto como verdade.

Ou ainda possa ser que mudar meu egoísmo e meu orgulho seja um modo de expressar melhor minha paixão, e consertar-me como uma capacidade seja o caminho para tê-la do modo certo. Talvez eu precise mudar para tê-la de um jeito certo, que ela também aceite me ter. Talvez seja essa a verdade tão implícita que não se resolve respondendo a questão. E embora não tê-la resolvido, cria-se um novo porém...

O pior não é continuar cercado de dúvidas ou saber logo de toda a verdade. O pior é não saber qual verdade ouvir e qual buscar."

Cartas Diretas,
obrigado.
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